domingo, abril 11, 2021

Dia Internacional da Luta pelos Direitos das Mulheres*

08 de Março é o dia em que nós, mulheres, recebemos muitas “homenagens”, em sua maioria romantizando nossa condição de desigualdade e sobrecarga, comumente adjetivada como qualidade de guerreira.

O termo correto para a data é Dia Internacional da Luta pelos Direitos das Mulheres, mas até nisso a sociedade interferiu, tratando de suprimir as duas palavras mais importantes: LUTA e DIREITOS. Restando apenas “dia da mulher”, ficando, assim, mais fácil descaracterizar e despolitizar a data e resumi-la a flores, chocolates e muita violência disfarçada de amor.

Na prática, não há homenagens para este dia.

Apenas para ilustrar, quando este texto foi escrito (08/03/2020) havia passado 16 dias de um acontecimento terrível aqui na minha cidade (Rio Branco-Acre), em que um homem, depois de assassinar sua ex-namorada, tirou-lhe a cabeça e a lançou em frente à casa de sua mãe. A notícia comoveu muita gente por um ou dois dias, e nesse grupo de “muita gente”, uma parte ainda questionou o que ela havia feito para que ele tomasse tal atitude. Queria poder dizer que se tratou de um caso isolado, mas, para nosso desespero constante, o Acre é um dos líderes no ranking nacional de feminicídio[1].

Mais recentemente, o Ministério público do Acre iniciou investigações acerca de um caso de incitação ao crime, em que um influenciador digital comparou uma mulher à Eliza Samúdio e escreveu “uma hora ela encontra o Bruno dela” [2]. Para quem já esqueceu, Bruno Fernandes de Souza foi condenado a 22 anos e 3 meses pelo assassinato e ocultação de cadáver de Eliza Samúdio, mãe de seu filho, em 2010.

Se estamos rodeadas de violências de todo tipo, o que estamos comemorando mesmo?

Não me sentirei homenageada enquanto os assediadores pedirem desculpas aos maridos das mulheres e não a elas.

Não me sentirei homenageada enquanto o presidente estiver decidido a respeitar somente as mulheres com quem ele concorda.

Não me sentirei homenageada enquanto mulheres forem julgadas por dizerem “não” a um relacionamento abusivo.

Não me sentirei homenageada enquanto as mulheres não puderem andar sem medo nas ruas.

Não me sentirei homenageada enquanto as mulheres forem ensinadas que nasceram para serem mães e boas esposas… que devem perdoar porque “afinal, homem é homem”.

Por fim, homens, este dia também é uma oportunidade para sua reflexão: ao desejarem um feliz dia para as mulheres, vocês estão cientes do patriarcado do qual são beneficiários ainda que não contribuam com ele? Estão dispostos a tomar atitudes que tornem nossos dias mais felizes e seguros?

* Texto publicado originalmente na página do facebook da autora, em 08 de março de 2020, e adaptado para esta coluna.

[1] Ver mais informações em: <https://amazoniareal.com.br/acre-tem-maior-taxa-de-feminicidio-entre-20-estados/> .

[2] Detalhes sobre o caso em: <https://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2021/01/27/influenciador-digital-do-ac-que-comparou-mulher-a-eliza-samudio-e-investigado-por-apologia-ao-crime.ghtml>

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