quarta-feira, outubro 28, 2020

Sexo e gênero

Ao abrir uma reportagem sobre um caso de homofobia, me deparei com o seguinte comentário de um leitor: “Só existe homem e mulher, o restante é anomalia” [1]. Embora a frase seja visivelmente preconceituosa, simplista e ignorante, vou considerar aqui também o que ela tem de verdadeiro, ainda que o próprio autor não esteja ciente disso.

Sim, biologicamente, como regra, só existem os sexos feminino e masculino, os quais as pessoas teimam em confundir com os gêneros homem e mulher. E, biologicamente também, existem muitos casos, como os de hermafroditismo (quando a pessoa nasce com estrutura testicular e ovariana), a síndrome XYY (super macho), a síndrome XXX (super fêmea), a Síndrome de Klinefelter, entre outros, que são considerados anomalias sexuais.

Ainda que este debate seja muito complexo e inesgotável, é possível compreendermos rapidamente as diferenças entre os conceitos sexo e gênero, e a principal delas é que o sexo é biológico e o gênero é social/cultural. Por exemplo, se não houver anomalias, nascemos do sexo feminino ou masculino, mas não sabemos nada sobre os comportamentos que a sociedade espera que venhamos a desempenhar em razão do gênero que é associado ao sexo, por essa razão é que desde muito cedo meninas e meninos são separados por meio de rituais de identificação.

Separam-se as cores das roupas (comumente rosa para menina e azul para menino), separam-se os brinquedos (bonecas para elas, bolas para eles), separam-se até os fenótipos (menina de cabelo longo, menino de cabelo curto). Nada disto é biológico, são as pessoas ao nosso redor que nos iniciam nestes comportamentos, afim de que os papeis na sociedade sejam bem definidos (normalmente superioridade para eles, subalternidade para elas). Era a isto que Beauvoir se referia quando disse que “Não se nasce mulher, torna-se mulher” [2].

É comum que mães e pais decidam furar a orelha das filhas ainda na maternidade para que elas não sejam confundidas com meninos, como se isso fosse algo altamente danoso, ou como se meninos não pudessem furar suas orelhas (o que já é muito comum a partir da adolescência, e, como tantas outras coisas, brinco não tem gênero). De todo modo, nenhum investimento na formação dos gêneros dos filhos pode realmente decidir sobre sua sexualidade. Todas as pessoas em algum momento da vida terão que se expressa-la de modo razoável, qual seja, aquele que lhe faz feliz.

Concluindo de maneira simples, o comentário referido é preconceituoso, porque o seu tom e o contexto no qual foi escrito denotam que o autor está considerando apenas a orientação sexual heteroafetiva de homens e mulheres como genuína, mas a razão do comentário em si está no fato de que na sociedade há, de fato, em sua maioria, homens e mulheres [3] e, neste grupo, existem e resistem as suas diversas formas expressão da sexualidade, pois as mulheres podem ser lésbicas, bissexuais, mulheres trans, entre outras, e ainda assim serem mulheres. E os homens, de igual modo, podem ser gays, bissexuais ou homens trans, e continuarem sendo homens. O que muda é a orientação sexual, ou seja, o modo como se relacionam afetiva e sexualmente.

Notas:  

[1] Ver: < https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/09/26/pgr-pede-ao-stf-para-apurar-se-ministro-da-educacao-cometeu-crime-de-homofobia.ghtml >.

[2] BEUVOIR, S. O segundo sexo, v.I, II. Tradução Sérgio Milliet. – 3. ed. – Rio de Janeiro:

Nova Fronteira, 2016.

[3] Existem também as pessoas que não se identificam com nenhum dos gêneros, são as chamadas não-binárias, porém esta é uma discussão sobre identidade de gênero e vai ficar para a próxima.

Por:  Maria José Correia (formada em História – Ufac e Mestra em Educação – Ufac).

Contatos: @mariacorrei4 / (68)999487160 / [email protected]

Maria José Correia
É Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Fedral do Acre (UFAC), Licenciada em História - UFAC (2017), foi professora substituta do magistério superior, lotada no Centro de Filosofia e Ciências Humanas - CFCH, da UFAC (2017-2019).

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