terça-feira, dezembro 1, 2020

O ódio. Este não, o outro

Há tempos vivenciamos uma “guerra” que aparentemente é de extremos políticos. Obviamente, existem muitos questionamentos e formas de refletir que vão muito além de dois polos, contudo, vimos crescer de forma exponencial duas aparentes linhas de pensamento desde as eleições de 2018: uma que já é amplamente conhecida como “bolsonarismo” e outra que agrega tudo o que se opõe “bolsonarismo” e que muitas vezes é simplificada como “esquerda”. Não ousaremos dizer que se trata da oposição Direita X Esquerda, primeiro porque seria desleal com a amplitude teórica que os termos merecem, e, segundo, porque os que fazem parte dos segmentos muitas vezes desconhecem os sentidos dos termos.

Tal desconhecimento, de qualquer que seja o lado (embora seja injusto equiparar), provoca o sentimento de desprezo ao outro, de aniquilação. Do lado “esquerdo” do debate, ficamos chocados quando o então deputado – atual presidente – Jair Bolsonaro disse, ao ser indagado sobre a conclusão do mandato da presidenta Dilma Rousseff (2010-2016), “Eu espero que acabe hoje, infartada ou com câncer, de qualquer maneira”[1]. Nos chocou também outras diversas vezes em que ele defendeu punições severas aos considerados inimigos, como, por exemplo, quando disse que o “erro da ditadura foi torturar e não matar”[2].

Essas e muitas outras falas que exasperam o ódio têm caracterizado a política bolsonarista, mas não só ela. Recentemente, ao vir à tona o resultado do exame do presidente Bolsonaro, que testou positivo para o novo Coronavírus, duas hashtags mediram forças no Twiter e outras redes sociais, uma dizia “Força Bolsonaro” e atingiu o pico dos assuntos mais comentados no Brasil, a outra dizia “Força Covid” e chegou a atingir o topo dos assuntos mais comentados mundialmente. Não dá para se estabelecer uma simetria entre uma política institucional do ódio (como a que é defendida pelo atual governo e seus interlocutores) e as falas mais pontuais que também revelam um caráter intolerante. Contudo, para ser coerente, é preciso dizer que o ódio é, em qualquer circunstância, injustificável.

Se tolerarmos um “tipo” de ódio, defendendo que ele seja um “ódio do bem”, incorreremos no erro de torna-lo amplamente aceitável, desde que se aponte uma causa. A política bolsonarista tem prejudicado muitos avanços da sociedade brasileira, especialmente no que se refere as pautas das chamadas “minorias”. Ele não defende cotas raciais, não dialoga com representações indígenas, faz constantes ataques à educação e à cultura, combate exaustivamente a ciência e defende constantemente o uso da violência, ainda assim, os defensores dessa política são os primeiros a apontar o ódio nas falas de opositores que compartilharam a hashtag “Força Covid”, buscando certa equiparação.  

Embora a hashtag “Força Covid” possa ser vista como uma representação do ápice da indignação de muitas pessoas frente a corrupção, a violência, ao descaso com a educação e a saúde, dentre outros problemas enfrentados pela população brasileira em razão da nova política de governo, precisamos analisar com maior lucidez os problemas que ela representa, como, por exemplo, o fato de que, na literalidade, a hashtag deseja forças a um vírus que gerou uma pandemia responsável por milhares de mortes.  

Notas:

[1] Ver: <https://noticias.uol.com.br/colunas/reinaldo-azevedo/2020/07/08/bolsonaro-torceu-para-dilma-morrer-de-infanto-o-cancer-consequencialista.htm>.

[2] Ver: <https://revistaforum.com.br/noticias/jair-bolsonaro-erro-da-ditadura-foi-torturar-e-nao-matar/>.

Por:  Maria José Correia (formada em História – Ufac e mestranda em Educação – Ufac).

Contatos: @mariacorrei4 / (68)9999487160 / [email protected]

Maria José Correia
É Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Fedral do Acre (UFAC), Licenciada em História - UFAC (2017), foi professora substituta do magistério superior, lotada no Centro de Filosofia e Ciências Humanas - CFCH, da UFAC (2017-2019).

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