Direito ao orgasmo

Que mulher nunca fingiu um prazer sexual ou se sentiu no dever de dar mais prazer ao parceiro do que a si mesma? Neste texto tratarei especificamente do direito ao orgasmo na relação heteroafetiva, não porque desconsidero que existam desigualdades em relação ao prazer em outros tipos de relacionamento, mas porque o modelo heteroafetivo porta muito mais determinações culturais acerca da diferença entre os papeis masculino e feminino. 

Avançamos muito nos debates sobre temas “proibidos”, como relação sexual, mesmo assim, o direito ao orgasmo ainda é fundamentalmente masculino. E isso ocorre, porque ainda nutrimos muitos mitos em relação ao sexo. Um deles é o de que ele pode servir para “segurar homem”. Essa invenção, imposição do machismo, relega às mulheres o papel de garantir que seus companheiros estejam sempre felizes e sexualmente satisfeitos, independente da liberdade e auto realização delas mesmas. 

Outra razão para que a sociedade considere o prazer sexual como eminentemente masculino é a função do sexo para a procriação. O orgasmo masculino, na maior parte dos casos, é associado à ejaculação, que, por sua vez, é indispensável ao processo de fecundação (com exceção dos casos de inseminação artificial). A mulher, no entanto, não precisa ter um orgasmo (ou ejacular) para engravidar. Neste sentido, quando a função do sexo é apenas procriar, são os homens que têm enorme probabilidade de ter um orgasmo na relação sexual.

A negação histórica do direito ao orgasmo às mulheres reside em elementos muito sutis que marcam a educação das crianças e dos jovens. Os meninos, de maneira geral, desde cedo são bombardeados pelos pais com “brincadeiras”, em grande parte nocivas, que revelam o caráter patriarcal da sociedade, são ensinados que precisam mostrar interesse por meninas o quanto antes e, desde o jardim de infância, são incentivados a falarem sobre a “namoradinha da escola” ou a fazerem gestos, como uma piscada de olhos, para dizerem que estão namorando, e, com isto, crescem acreditando que precisam sempre controlar os relacionamentos. Já a menina, em qualquer idade, deve se eximir de se pronunciar sobre qualquer assunto relacionado ao sexo ou à sexualidade.

Outro exemplo é que na adolescência masculina, a masturbação é assunto comum, muita gente admite que é da natureza humana e é autoconhecimento, de forma que a conhecemos por vários nomes: “punheta”, “agasalhar o croquete”, “aliviar-se”, “descascar a mandioca”, entre outros, todos ditos, aprendidos e ensinados com alguma naturalidade. Entre as mulheres, contudo, este não é um assunto comum, existe, mas é sempre reprimido porque identificado como depreciativo, como conduta para “certos tipos de mulheres”. Para eles, necessidade, para elas, pecado.

Os prostíbulos, ou bordeis, comuns na Primeira República, também constituem exemplo de espaços determinantes com função de dar satisfação extra aos homens, uma vez que a maioria dos que frequentavam (e frequentam) estes espaços tinham esposas, mas elas portavam serventias “mais puras”, como cuidar da casa, dos filhos, além de cozinhar bem e ser apresentável para as famílias e os eventos públicos. Quem não sabe do que estou falando, leia um romance, como “Gabriela”, de Jorge Amado. O prazer não era direito das prostitutas, uma vez que a prioridade era o prazer do cliente, assim como não era para as mulheres casadas.

O prazer sexual é tão negado às mulheres, que hoje ainda (embora combatida) em vários países da África e da Ásia é comum a circuncisão feminina, com a finalidade exclusiva de inibi-lo. Hoje, este assunto deve ser uma prioridade, por estar diretamente associado à liberdade feminina. É liberdade fundamental expressar-se sobre sexualidade, assim como escolher quando e de que maneira o sexo é prazeroso para as pessoas envolvidas.  

Por:  Maria José Correia (formada em História – Ufac e mestranda em Educação – Ufac) – 30/06/2020.

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