Jenilson Leite: o médico de origem indígena que virou deputado e continua amando o interior

Nascido no seringal Mucuripi, no alto do Rio Muru, distante há 5 dias de viagem de Tarauacá, e origem indígena, Jenilson Leite conhece de perto as dificuldades de quem não tem acesso a direitos, leis escritas ou remédios que curem as mazelas de suas doenças adquiridas graças a má alimentação e falta de oportunidades de quem vive em meio ao isolamento.

Aos 39 anos, o médico infectologista Jenilson Leite está há 3 anos como deputado estadual e já coleciona mais de 127 viagens ao interior durante suas atividades parlamentares, incluindo uma que durou 6 dias que fez em julho, durante o recesso parlamentar, onde percorreu seringais localizados no alto do Rio Muru, localidade onde nasceu, e outras colocações.

“NÃO SOU DEPUTADO, ESTOU DEPUTADO, O QUE SOU MESMO É MÉDICO NASCIDO NO INTERIOR E QUE AMA E CONHECE O ACRE”, DIZ AO RESUMIR SUAS ATIVIDADES EXTRAMUROS DA ALEAC.

Simples, de poucas palavras, essa foi a primeira entrevista que Jenilson Leite concedeu à imprensa falando de suas origens e do trabalho social que desenvolve em paralelo com suas atividades parlamentares.

“Ele até concede entrevista numa boa, mas não gosta muito de falar do trabalho que faz ajudando os outros, ele é reservado nesse sentido, realmente não faz por finalidade eleitoreira”, avisa um dos assessores antes da entrevista no gabinete do parlamentar localizado no segundo andar da Aleac.

De atendimento médico realizados em Porto Acre durante a 5° edição do Saúde Itinerante na Vila do V ao mutirão de atendimentos realizado no Jordão, Jenilson preenche os raros momentos vazios na agenda realizando atendimento clínicos a quem não possui recursos financeiros para pagar ou condições de chegar até uma unidade de atendimento.

“As vezes o posto de saúde mais próximo pode estar há dias de viagem feita em barcos ou estrada. Se estou no interior, em uma aldeia ou nas cabeceiras de um rio, e alguém precisa de um atendimento é claro que eu faço, é parte do meu juramento como médico e nessas oportunidades a gente sempre aproveita para poder ajudar as pessoas no que é possivel”, diz de forma modesta minimizando os atendimentos gratuitos que presta durante suas viagens ao interior, onde aproveita para colher subsídios para o seu desempenho parlamentar.

Nem mesmo por amar sua profissão de médico e sentir-se vocacinado para ela, Jenilson Leite relega o papel que ocupa atualmente como parlamentar. De acordo com relatórios internos de produtividade da Aleac, o deputado comunista é um dos mais atuantes da atual legislatura, seja em trabalhos nas comissões ou no plenário da casa e isso sem deixar de cumprir suas agendas externas onde realiza o trabalho itinerante.

“O trabalho do deputado não é só sobre criar leis, precisamos saber para quem estamos criando as leis e dar demonstrações que o nosso dever deve sobrepassar o que está no papel, no regimento interno, não é porque estou deputado que vou restringir meu trabalho apenas aqui ao prédio da Assembleia, criando projetos de leis que muitas vezes nem são aplicáveis e que acabam nem chegando até a população. A gente tem que entender as dificuldades que as pessoas vivem, se abraçar com os problemas e com as pessoas que os vivem e tentar intermediar, achar um caminho mais curto para os solucionar” diz.

Consciente de que ações individuais não resolvem problemas de larga escala, Jenilson diz que é confortante saber que uma pequena ação poderá aliviar dores grandes de pessoas que na maioria das vezes são praticamente invisíveis para o Estado.

“A gente percebe que as vezes dentro do sistema público, que por mais que o governo se esforçe, ainda falta atendimento em algumas regiões e eu tento fazer o que está ao meu alcance, sei que não dá para atender todos, mas para quem chegar atendimento, mesmo que seja um número inexpressivo diante das estatísticas, vou saber que terei feito a diferença na vida daquela pessoa”, diz.

Mesmo minimizando o efeito de suas ações individuais, Jenilson não atende uma pessoa aqui e outra acolá, ele atende dezenas como foi o caso do atendimento realizado no Jordão.

“Ajudo como posso, hora fazendo com que o ensumo chegue aos municípios isolados, hora me colocando a disposição para poder ajudar como profissional, exemplo, estávamos com um problema agora para que os pacientes com hepatite no Jordão fossem atendidos por um infectologistas, daí eu fiz um pedido a Secretaria de Saúde e eles colocaram todos os profissionais do corpo técnico para ir atender e eu mesmo fui como infectologista. Lá no Jordão nós atendemos mais de 60 pacientes que se eles tivessem que seguir a rotina do sistema público que era sair do Jordão e vir ser atendido em Rio Branco, só de passagem iriam gastar mais de R$ 80 mil e foi algo que foi economizado. Fui voluntariamente, até mesmo porque como deputado eu não posso ter outra renumeração para além da que exerço atualmente. Tenho feito isso não só no Jordão, mas também em outros municípios, as vezes vou no Pronto Socorro e atendo quem encontro. É minha missão como filho pobre de Tarauacá que teve a sorte de ter a formação de médico. Quero cooperar, ajudar”, diz.

 

Apegado a causas sociais, Jenilson Leite aprendeu cedo os valores da luta política e aprendeu também a valorizar suas conquistas.

“Como vim de escolas mais simples eu não tive condição de passar no vestibular aqui, mas agarrei a oportunidade quando ganhei a bolsa para estudar em Cuba. Eu, um menino que chegou à cidade, Tarauacá, aos 7 anos de idade quando fui ser alfabetizado, foi um sonho me formar em medicina. Fui aos 25 anos e agarrei aquela oportunidade com todas as minhas forças, realmente eu fui para estudar e só fiz isso, foram 6 anos de dedicação exclusiva, estudando de manhã, de tarde e de noite”, diz.

Antes da formação em medicina, Jenilson Leite ganhou da lida da vida a formação na militância política e social.

“Com 9, 10 anos eu já acompanhava os movimentos sociais, ia na companhia do meu tio Chagas Batista (ex-prefeito de Tarauacá pelo PCdoB). Eu acompanhei o nascimento dos movimentos sindicais, o direito pela posse da terra, onde havia muita tensão, depois, aos 11 anos passei a fazer parte do movimento de jovem da igreja católica, logo após fui fazer parte da União da Juventude Socialista (UJS) e daí eu já estava dentro da política e a política dentro de mim”, resume.

Gina Menezes, do site Folha do Acre

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